Quem gosta das artimanhas humanas no trato das palavras não cessa de se admirar com as inúmeras técnicas de manipulação empregadas pela grande mídia (“velha mídia”, para os internautas), nas manchetes, títulos, matérias e colunas. De uns tempos para cá, uma artimanha em especial vem ganhando prestígio entre os prestidigitadores verbais: a dupla dinâmica “substantivo monstruoso – adjetivo atenuador”.
Primeiro, foi a Ditabranda, termo de origem espanhola adotado pela “Folha de S. Paulo” no editorial “Limites a Chávez”, publicado em 17 de fevereiro de 2009.
Notável a ousadia linguística que levou à substituição da parte constrangedora da palavra (“dura”) pelo adjetivo de sentido oposto, “branda”. Incorporando o adjetivo à própria palavra, evita-se o contato com a palavra original, de significado repulsivo.
No mesmo ano, o comentarista Arnaldo Jabor denominou “golpe democrático” a destituição e o exílio imposto ao então presidente Manuel Zelaya pelos militares de Honduras.
http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/arnaldo-jabor/2009/09/24/O-GOLPE-DEMOCRATICO.htm
Em 2010, Marco Aurélio Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal (o supremo guardião da Constituição), considerou a Ditadura Militar (1964-1985), com tudo que ela significou para o País, um “mal necessário” .
http://veja.abril.com.br/030310/veja-essa.shtml
Recentemente, segundo relato do pesquisador Rostand Medeiros, cunhou-se a expressão “escravidão mansa” para denominar o trato dos escravos no Rio Grande do Norte.
(A expressão não é de autoria do autor do artigo abaixo.)
http://tokdehistoria.wordpress.com/2011/06/03/anuncios-de-escravos-fugidos-no-rio-grande-do-norte/
Nos quatro casos, um só objetivo: atenuar a reação do leitor ou ouvinte ao substantivo carregado de conotações negativas.
Os espertos criadores dessas expressões não discutem o horror associado ao substantivo; ao contrário, desviam a atenção do leitor para o adjetivo que lhe serve de inesperada companhia, cuja função é tornar aceitável o inaceitável. Mal comparando, é uma situação semelhante à das históricas fotos de Hitler, afável, brincando com seu cão: a monstruosidade se humaniza temporariamente por meio de um coadjuvante que gera associações agradáveis.
Quem não gosta do que é brando, manso ou democrático, e quem não aceita o que é necessário?
Outro artifício atenuador, mais raro, opera por substituição. Exemplo clássico? O mensalão mineiro. Para evitar “entregar o ouro ao bandido” (ou ao mocinho, dependendo do ponto de vista), a grande mídia substituiu o adjetivo “tucano” por “mineiro”, culpando um Estado inteiro pelas estripulias de um grupelho.
Qual será a próxima dupla “substantivo monstruoso – adjetivo atenuador” criada pelos prestidigitadores verbais?
Tortura gentil?
Assédio lisonjeador?
Corrupção edificante?
Assassinato caridoso?










