A resenha gentil do século?
“Veronika Decide Morrer”, página 20, Paulo Coelho, 1998, cópia baixada do site do autor.
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“Como qualquer brasileira, aprendera a sambar antes mesmo de dizer ‘mamãe’; …”
“Onze Minutos”, Paulo Coelho, Editora Rocco, 2003.
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“Esta Coisa Única permitia que os alquimistas entendessem qualquer coisa sobre a face da Terra, porque ela era a linguagem pela qual as coisas se comunicavam.”
“O Alquimista”, Paulo Coelho, 1988, cópia baixada do site do autor.
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Entrevista à revista “Veja” em 2001.
http://veja.abril.com.br/220801/entrevista.html
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No meio literário, “resenha gentil” designa um texto de divulgação ou defesa literária de autor ou obra, disfarçado como avaliação crítica. Em sua forma clássica, o resenhista enumera as virtudes do autor ou da obra, gastando adjetivos grandiloquentes. Quando pouco há para elogiar, cria-se um referencial teórico qualquer, o qual, enfeitado pela pomposa linguagem acadêmica, passa a impressão, mesmo para quem não o entende, de que é ouro, sim, aquela pirita.
Na última invenção do marketing literário paulo-coelhino, o Tuíte do “Ulisses”,…
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1131545-paulo-coelho-que-lanca-seu-22-romance-diz-que-ulysses-fez-mal-a-literatura.shtml
… Paulo ganhou um defensor inesperado no meio acadêmico, o professor de Literatura Idelber Avelar.
Não, eu não escrevi “professor de Estatística”. O chute da percentagem, única base para a crítica, é dele.
Três dias depois, mais surpresa: um artigo atacando os críticos da tuitada maligna de Paulo.
Em meio a frases elogiosas mais apropriadas a um press-release (“Seu escritório recebe centenas de emails diários com testemunhos de como seus livros transformaram a vida de leitores”), o ponto-chave: a crítica à declaração de Paulo teria sido motivada pela “desesperada tentativa de defender um monumento da alta cultura para, com isso, acumular alguns pontinhos na escala da distinção”.
Nesse sentido, Idelber e Paulo são irmãos em sua estratégia de desqualificação de opositores: ambos optaram por atribuir uma intenção malévola ou reprovável a todos aqueles que não concordam com suas posições. Motivação única para a turma toda. Isso, num mundo em que a inimaginável marca de 7 bilhões de pessoas (e a convivência diária com dúzias delas) revela a impropriedade de unificar o que se revela incrivelmente diversificado: a experiência humana.
Quem já leu o Twitter de Paulo sabe que a atribuição de “inveja” e “ódio” é sua explicação preferida (e simplista) para desqualificar as críticas de leitores, resenhistas e acadêmicos. Um experimento de consulta aos leitores, feito em seu site, não foi intitulado “Por que não gosto dos romances de Paulo Coelho”, e sim “Por que odeio Paulo Coelho”. Mais evidente, impossível.
Valia até um desafio: tuíte uma declaração de Paulo Coelho em que ele tenha reconhecido a possibilidade de alguém, sinceramente, não gostar de um livro de sua autoria – sem ser movido por inveja ou ódio. O pressuposto do valor universal inquestionável jamais foi tão bem representado.
Idelber e Paulo pensam em bloco (só admitem uma possibilidade para milhões de pessoas), deletam de seu pensamento outras possibilidades mais aceitáveis e carregam nos termos (“atacar, vilipendiar, desprezar e achincalhar”) para, atribuindo intenções malévolas ou reprováveis aos opositores, justificar… um ataque a estes. Ambos eliminam, na prática, o direito a uma opinião divergente (quanto mais uma opinião honesta e aceitável), no ponto básico da questão.
Por ser um pensador, Idelber já deveria ter intuído há muito a estratégia de desqualificação de Paulo, em vez de ingenuamente tomar carona na polêmica para veicular suas próprias ideias, reforçando com isso a posição imatura do escritor. Deveria ter percebido há muito que este, incapaz de garantir seu maior objetivo (a aprovação pelo establishment literário – “Sou amado pelos leitores, odiado pela crítica”, frase hiperbólica de “O Zahir”), utiliza três procedimentos recorrentes:
1. Desqualificação dos leitores que não gostam de suas obras.
São pessoas odientas e invejosas. E não me leram (porque, se lessem, gostariam).
2. Desqualificação dos profissionais que criticam suas obras (resenhistas, críticos e acadêmicos).
O penúltimo ataque de Paulo não poderia ser mais claro: “O intelectual está morto. Viva o internetual!”
Adivinhem quem é o “intelectual”?
Se não posso fazer com que gostem de mim, mato-os simbolicamente.
Entrevista à revista “Veja”, em 1991:
http://www.capitaldaarte.com/site/?p=4492
O pressuposto por trás dessa vingança póstuma? “Ninguém me criticará impunemente. Porque ninguém pode me criticar.” E o cofre foi para a nuvem:
Lição espiritual bélica? Estranha forma de amor, essa espécie de vingança orgulhosa do seu próprio potencial destrutivo. Parece uma atitude de quem não teve irmãos e não aprendeu a brigar… e a perdoar. Inúmeras vezes.
3. Desqualificação das obras utilizadas como referência para a rejeição de seus romances.
Qual é o símbolo maior da ficção literária, alvo reiterado dos ataques de Paulo (sim, não foi o primeiro)? Da mesma entrevista à “Veja”:
Se eu puder eliminar o valor das obras que usam para me “atacar”, como poderão me atacar?
Aliás, para quem ensina tanto a ficar atento e a obedecer aos “sinais” da realidade, é contraditório esse descaso de Paulo com os sinais transmitidos pelos críticos de sua obra. Não ganharia ela em qualidade se o escritor demonstrasse o mesmo zelo por sua obra que demonstrou por sua carreira (aprendendo idiomas, por exemplo)? Um breve curso particular com um professor de Português eliminaria rapidamente um dos focos prediletos da crítica.
Outra afirmação do artigo de Idelber pode chocar. Leia pausadamente: “Quanto à boutade de Paulo, de que o romance cabe num tuíte, nada mais verdadeiro. Hamlet, Anna Karenina, Guerra e Paz e Édipo Rei também cabem”. Todo o conteúdo do texto e da história de cada um desses livros, e todas as suas experiências de leitura de cada um deles poderiam ser resumidos num tuíte – ou mesmo a sua essência? Não é afirmação de quem tenha lido um livro na vida.
“Ulisses”, embora chatíssimo como leitura tradicional em muitos trechos, é valorizado justamente porque explorou e detonou as fronteiras do romance, em forma e conteúdo. Esse feito artístico só poderia ser conseguido numa obra de centenas de páginas; portanto, a afirmação de que caberia em 140 caracteres revela desconsideração do próprio valor artístico da obra.
O argumento da “formação de leitores” não é digno de acadêmico, profissional que deveria primar pelas fontes e pela precisão: não há nenhum dado objetivo correlacionando a vendagem expressiva das obras de Paulo Coelho ao aumento do número de leitores no Brasil.
Continuando a treta. A defesa de Idelber prosseguiu no Twitter, em comunicação direta com o autor. Novamente, recorrendo a desqualificações. E a carinhas cheias de afeto.
Valeu até um momento único na história da psicografia literária:
E rendeu um convite para uma resenha na “Folha de S. Paulo” (intermediado pelo autor?):
Antigamente não seria considerado ético esse tipo de contato prévio entre autor e resenhista. Mas os tempos mudaram:
Mudaram mesmo. Tempos em que autor e resenhista torcem juntos pela publicação de uma resenha gentil.
E em que o resenhista envia o texto da resenha para o autor, antes de sua publicação. Pode isso, Arnaldo?
Nos Estados Unidos não pode. Se a resenha fosse escrita, por exemplo, para o “New York Times”, um contrato previamente assinado impediria esse tipo de relacionamento íntimo entre resenhista e autor:
“137. Before being given an assignment, freelance contributors must sign a contract with the Times Company or one of its units. Such a contract obliges them to take care to avoid conflicts of interests or the appearance of conflict.”
http://www.nytco.com/press/ethics.html
Tuíte sobre o apoio de Paulo Coelho ao blogue Livros de Humanas, iniciativa de compartilhamento de livros para universitários que a Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) conseguiu bloquear na Justiça:
O primeiro nome entre os elogiados pelo desempenho na brincadeira antiliterária (e marqueteira por excelência) do tuíte do “Ulisses”, patrocinada pela “Folha” um dia depois do envio da resenha ao escritor, foi…:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/61176-o-tamanho-de-ulysses.shtml
E a resenha que proporcionou a validação acadêmica tão ansiosamente sonhada por Paulo Coelho, a qual leva o título troncho e enganoso de “Livro traduz parábola para a literatura comercial”?
. Repete o argumento equivocado e maledicente do primeiro artigo (“As reações [à crítica a ‘Ulisses’] não vinham da cultura erudita entrincheirando-se na autodefesa, mas de comentaristas que rendiam culto a um monumento como forma imaginária de comunhão com ele”). Ah, se a vida fosse tão simples… Mas registro a introdução do argumento da “reserva de mercado” na crítica literária, mais uma suposta exclusividade das elites nacionais.
. Pisa na Lógica (“Curiosamente, a insistência no valor de ‘Ulysses’ e na falta de valor de Coelho era contraditória com a própria obra de James Joyce, que, apesar de eruditíssimo, nunca escondeu seu gosto pela cultura popular”). Só por ser “popular” (categoria genérica) a obra de Paulo (exemplo específico da categoria) merece ser apreciada por pessoas de gosto erudito? A condição impõe necessariamente o juízo? Toda e qualquer manifestação de cultura popular? Joyce daria valor à obra de Paulo apenas por ser ela um dos inúmeros exemplos de “cultura popular”?
(Um grande estilista como Joyce deliciando-se com o estilo primário e os erros gramaticais de Paulo Coelho é algo que minha pobre imaginação jamais conseguirá conceber.)
No próximo exercício de psicografia literária, pergunte ao Joyce, por favor, se também gosta de James Patterson, Stephen King, Janet Evanovich, John Grisham, Nora Roberts, Danielle Steel, Suzanne Collins, Dean Koontz, Stephenie Meyer e outros romancistas populares que faturaram bem mais do que Paulo no último ano. São da mesma categoria, e Joyce era bom de Lógica.
. Oferece uma “explicação” simplista, única e de natureza literária, para o sucesso de Paulo (“Manuscrito…” traz uma explicação: traduz, para a literatura comercial moderna, o gênero da parábola”), sem tratar de componentes óbvios desse fenômeno social:
. A função assumida de mentor espiritual humanizado (a mesma exercida em relação a seus 5 milhões de seguidores no Twitter).
. A representação reiterada de um mundo amigável aos sentimentos, desejos e sonhos humanos.
. A simplicidade de ordenação desse mundo.
. A validação da visão de mundo individualista (o clássico “eu mereço” elevado a filosofia de vida).
. O incentivo insistente à luta pelos sonhos pessoais.
. A mensagem da impossibilidade de fracasso (porque o universo inteiro – inclua nisso os buracos negros – ajudará o buscador sincero): “Quando você quer alguma coisa, todo o Universo conspira para que você realize seu desejo”.
Reconhecem?
“O herói é ajudado ocultamente por conselhos, amuletos e agentes secretos do ajudante sobrenatural que ele encontrou antes da entrada nesta região [o mundo da aventura]. Ou pode ser que ele, aqui, descubra pela primeira vez que há um poder benigno em todos os lugares que o apoia nessa jornada sobre-humana” (itálico acrescentado, The Hero with a Thousand Faces, página 49, Joseph Campbell, Princeton University Press, 1949).
Uma intuição mitológica deturpada para “Seja ambicioso: o Universo é seu parceiro”. Satisfação garantida ou sua inteligência de volta.
Espanta que o escritor seja um dos preferidos das celebridades da mídia, pessoas naturalmente exibicionistas e ambiciosas?
. O enquadramento confortador do sofrimento humano.
. A redundância das mensagens espirituais básicas.
. A espiritualidade a serviço da materialidade.
. As explicações simplistas sobre os mais variados fatos da existência humana.
. A facilidade infantil de compreensão da trama.
. O ambiente de aventura.
. A estrutura consagrada do enredo baseado na busca por um objetivo.
. O uso repetitivo da sequência a) lição do mestre, b) experiência do discípulo, c) confirmação da lição do mestre. Aponte-me uma lição não confirmada, por favor.
. A função didática do personagem central, metáfora do leitor ideal, passando a lição através do exemplo (faça o que o personagem está fazendo, e seus problemas estarão resolvidos). O narrador explica (esta, a parte intelectual e filosófica da lição), o personagem faz (esta, a parte prática da lição), o leitor imita – imita o narrador em sua visão de mundo, e o personagem em seus comportamentos.
. A superficialidade do estilo.
. O charme das frases criadas para servirem de citações.
. A ausência absoluta de trabalho intelectual do leitor, sempre conduzido pelo narrador-tutor.
. O final feliz ou “para cima”.
. O eficiente trabalho de marketing de Mônica Antunes, agente literária exclusiva de Paulo, e do próprio autor (vide esta polêmica).
Entre outros. Todo fenômeno de massa é produto de várias causas.
Algum elogio de natureza acadêmica teria de ser feito na resenha, e ele é:
“De larga tradição, a parábola não se reduz à autoajuda porque nela opera o discurso ficcional, desestabilizando a aparente univocidade do ensinamento.
Daí o fascínio de tantos leitores: simples e compreensível, a parábola preserva uma dose de mistério.”
Idelber oculta dos leitores uma informação básica que anula o ponto-chave da sua defesa de Paulo: a parábola é uma das formas clássicas da literatura de… autoajuda. Exemplos:
. “Mensagem a Garcia”, de Elbert Hubbard (1899).
. “Acres de Diamantes”, de Russell H. Conwell (1921).
. “O Homem mais Rico da Babilônia”, de George S. Clason (1925).
. “O Maior Vendedor do Mundo”, de Og Mandino (1968).
. “Fernão Capelo Gaivota”, de Richard Bach (1970).
. “O Caminho do Guerreiro Pacífico”, de Dan Millman (1980).
. “A Profecia Celestina”, de James Redfield (1993).
. “Quem Mexeu no meu Queijo?”, de Spencer Johnson.
. “O Monge e o Executivo”, de James Hunter.
. “Bruxaria Corporativa – Uma fábula do mundo dos negócios”, de Richard Whiteley.
. “O Semeador de Ideias”, de Augusto Cury.
. “O Motorista e o Milionário”, de Joachim de Posada e Ellen Singer.
Esses e muitos outros autores da autoajuda “traduziram parábolas para a literatura comercial”. E muitos deles publicaram obras no gênero antes de “O Alquimista” (lançado no Brasil em 1988 e nos Estados Unidos em 1993). Ficam à espera, assim como os romancistas populares supracitados, de validação acadêmica equivalente, pelo critério de equidade.
Uma simples busca no Google, usando “parable”, “self-help” e “books”, levaria a este resultado na primeira página: “Self-Help Books: Why Americans Keep Reading Them” (“Livros de Autoajuda: Por que os Americanos Continuam Lendo-os”). Clicando-se no link:
“Dos mais de trezentos livros de autoajuda que li e de incontáveis outros que folheei nas livrarias, pude identificar três formas literárias genéricas que são tipicamente usadas por autores contemporâneos: a parábola, o ensaio e o manual ou livro do gênero como-fazer” (itálico acrescentado, “Self-Help Books: Why Americans Keep Reading Them”, página 40, Sandra K. Dolby, University of Illinois Press, 2005).
O primeiro resultado da mesma busca seria um link para a Amazon, uma lista de mais de 100 livros de autoajuda na categoria “Parábolas”.
Mas o texto não era uma resenha do novo livro? O leitor recebe alguma informação sobre valores literários básicos como:
. A originalidade do tema (em relação à Literatura e à própria obra do autor).
. A criatividade da visão de mundo do autor.
. A estruturação inovadora do enredo.
. Personagens críveis, interessantes e bem desenvolvidos.
. Diálogos convincentes e instigantes.
. O domínio do idioma.
. A adequação e a originalidade do estilo.
. O desenvolvimento da trama.
. O uso dos recursos literários (suspense, surpresa, subtexto, ironia dramática etc.).
E tantos outros?
Ficamos sem saber em quê, especificamente, a história é “boa” (a “nota” dada pelo resenhista). Apenas por ser uma parábola? Seria esta a explicação reducionista extrema na história do pensamento humano para o sucesso internacional de um escritor?
Ou será que Idelber, usando, ele próprio, a técnica do subtexto, não comentou nenhum desses aspectos essenciais em uma obra literária porque… (crítica implícita a Paulo, aqui)?
O fenômeno social Paulo Coelho não pode ser entendido no nível da forma (a parábola, típica da autoajuda) porque ele é produto do conteúdo (daí seu descaso por todos os aspectos formais da Literatura, a começar pela Gramática). Paulo é um mentor espiritual que se utiliza da escrita como meio de influência: romances, livros de máximas, colunas com historinhas, posts de blogue, tuítes – tudo serve ao seu propósito único.
Outros mentores espirituais utilizam como meio de influência a fala e a presença de palco. Exemplos: o Bispo Edir Macedo, o Pastor Valdomiro, o Bispo Silas Malafaia. Variam os ensinamentos, os rituais, os compromissos e a forma de relacionamento, mas a função social desses quatro mentores é a mesma: ensinar a viver, com base numa doutrina espiritual “dominada” pelo Mentor – exclusividade que lhe serve como fonte de autoridade.
A dica estava numa afirmação do próprio Idelber, em seu primeiro artigo: “Ao contrário de outros escritores que vendem milhões, como John Grisham e Dan Brown, Paulo Coelho arrasta milhares de pessoas para onde vai” (itálico do autor). E também na sua frase marqueteira sobre o efeito “transformador” da obra na vida dos leitores. Mentores espirituais têm seguidores agradecidos (pelas lições “transformadoras”), escritores de sucesso têm leitores satisfeitos (pelas experiências recompensadoras).
A rejeição da maioria dos escritores a Paulo Coelho não vem de uma contrariedade por seu sucesso entre os leitores ou por sua projeção internacional, ambos efeitos de mérito, e sim da constatação de ser alguém que usa a literatura sem ter nenhum amor a ela, de passagem (assim como usou a Academia Brasileira de Letras), degradando essa arte com exemplos reiterados de desleixo profissional, e que, por não encontrar unanimidade de aceitação neste meio (única situação aparentemente aceitável para ele), ataca-o sempre que possível.
É óbvio que a crítica aos leitores de Paulo ultrapassa o limite do aceitável. Numa sociedade democrática, a leitura é um direito individual e sagrado. Mas todos sabemos também que “gosto não se discute” é o mais utópico de todos os ditados populares. Criticar é humano. Como diz a garotada, “se não sabe brincar, não desça para o play“.
Por último, quem lê Paulo Coelho percebe logo que não há nenhuma ambiguidade em seus ensinamentos espirituais: é um conjunto pétreo de certezas, repetidas ao ponto do “chega! já entendi”. Um exemplo de ambiguidade, por favor.
A resenha foi publicada em 17/8 no caderno “Ilustrada”, da “Folha de S. Paulo”.
Onde? Neste jornal?
“[... o] esforço definidor da intervenção de esquerda hoje (e dentro do qual eles poderiam até ganhar espaço em relação ao PT): acelerar a destruição da moribunda credibilidade nos grupos de mídia; promover a guerra de guerrilha incessante contra sua imagem, moral e capacidade de esconder a fábrica de linguiça; exibir e ridicularizar cada erro, mentira, notícia distorcida; revelar e expor minuciosa e diariamente sua história de colaboração com a ditadura; acossar seus patrocinadores com o boicote; bombardear seus ombudsmen com críticas; ajudar a disseminar os blogs que os desconstroem; trabalhar diuturnamente nas campanhas de cancelamento de assinaturas; não respirar enquanto as corjas Civita, Marinho, Frias e cia. tenham sofrido uma derrota categórica”
Eles sabem quem eu sou, de onde eu escrevo, quais são as minhas escolhas políticas. A credibilidade vem disso, ela não vem de uma pretensa neutralidade. A Folha de S.Paulo tenta passar a impressão de que é um jornal eqüidistante das forças políticas deste país, quando todo mundo sabe as relações da Folha com o José Serra. Todo mundo conhece. Qualquer um que saiba o beabá da política brasileira sabe das relações da família Frias com José Serra. Os escândalos que se sucederam no governo paulista. Eles fizeram um contrato sem licitação para o metrô, abriu-se uma cratera no centro de São Paulo, uma cratera do tamanho deste quarteirão, morreu um monte de gente, o contrato era sem licitação, era superfaturado, todo mundo sabe disso. E não teve uma matéria que investigasse isso.
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/as-novas-midias-e-o-jornalismo
Além de oferecer a modesta ajuda na divulgação do ato [contra a Folha de S. Paulo], eu apresento o recibo de cancelamento da minha assinatura:
O Biscoito [Fino e a Massa] entra em fase de apoio radical a qualquer ridicularização, boicote, ataque verbal, protesto, charges, manifestação ou sabotagem não violenta dirigida contra os Frias, os Marinho, os Civita e suas corjas de servidores. Cada assinatura que eles percam, cada desmoralização que sofram, cada restinho de credibilidade que escoe pelo ralo, é mais um tijolinho no prédio da democracia.
Eu li “boicote”? Eu li “corjas de servidores”, aqueles que escrevem para o jornal?
Na treta sobre o Tuíte de “Ulisses” faltou a Idelber objetividade (para não projetar em Paulo intenções e ideias que são apenas suas), inteligência (para avaliar o fenômeno social Paulo Coelho), ética (para não misturar amizade e exercício profissional) e coerência (para recusar a exposição social num veículo da mídia que ele deseja ver extinto).
Atualização em 24/8
Matéria do Terra sobre o aniversário de Paulo Coelho:
“Em artigo para a revista Fórum, no qual resenha o último livro do autor Manuscrito encontrado em Accra o professor e crítico Idelber Avelar definiu bem o fenômeno Paulo Coelho ao escrever que ele traduz, para a literatura comercial moderna, o gênero da parábola” (itálico acrescentado).
Assim nascem os memes e os chavões intelectuais. Este, aparentemente, veio para ficar. E tem dono.
É por isso que a autoridade intelectual deve sempre vir acompanhada da responsabilidade social. A maioria das pessoas crê nas autoridades e repete sem questionamento as suas afirmações. Mesmo quando não têm um pingo de sustentação nos fatos.
http://www.dw.de/dw/article/0,,16188798,00.html
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Não é raro em nossa vida descobrirmos que nossos mais “elevados” valores, nossas causas mais caras, mesmo aquelas de que depende a nossa autoimagem ou a nossa imagem social, são trocadas avidamente por algum benefício imediato que contradiz tudo que havíamos alardeado ao mundo.
É como se o excesso de ostentação desses mesmos valores e causas fosse uma armadura protetora da sua fragilidade. Uma armadura de papelão.
E o preço da troca, quase sempre, é frustrantemente baixo. Os interesses vencem os valores no primeiro embate, e com uma facilidade chocante.
Só há um benefício realmente valioso: depois dessa troca, sabemos realmente quem somos. Mesmo que essa verdade não seja agradável (e nunca o é), a energia antes empregada na criação da imagem de fachada pode ser dirigida a refazer nosso autoconceito e a lidar de maneira mais sábia e íntegra com a nossa representação social.
Na ficção, assim como na realidade, o impacto desses momentos é muito forte, daí a sabedoria de reservá-los para um estágio mais adiantado da história. Essa rasteira na autoestima, aliás, é uma das escolhas preferidas dos romancistas e roteiristas para o “momento da verdade” do personagem central, o ponto da história em que ele chega ao “fundo do poço”, em que tudo parece perdido na luta por seu objetivo, e em que, iluminado por um insight corajoso sobre si mesmo, ele consegue reunir suas últimas forças e voltar à luta.
Os místicos denominam esse período de desolação (e reconsideração de valores) a Noite Sombria da Alma.
Aplicando a lição:
. Qual seria o “momento da verdade” perfeito para o seu protagonista? Que descompasso marcante entre a imagem social que ele projeta e quem realmente é, em seu interior, faria sentido no contexto do tema da sua história?
. Que insight corajoso faria dele uma pessoa mais íntegra, e como essa nova autoimagem serviria ao personagem na luta por seu objetivo?
Para quem gosta de terminologia, o traço de personalidade conscientizado no momento da verdade é a chamada “falha trágica”. Que só é realmente trágica se não for reconhecida e superada a tempo pelo personagem.
Ou pela pessoa.


















[...] a “gentileza” da crítica e outras questões, compartilho o interessantíssimo link enviado por um leitor, a propósito daquela polêmica marqueteira Paulo Coelho x James [...]