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Quem mudou a minha coisa? Eu.

 A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa… e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

Mario Quintana.

O poeta gaúcho Mario Quintana, escrevendo uma coisa.

Em seu estilo inimitável, Quintana expôs o maior desafio do escritor. Escrever é transferir, por meio de um texto, o conteúdo que está na mente do escritor, para a mente do leitor. Pensamento e elaboração => Texto trabalhado esteticamente => Leitura e recepção.

Nesse processo, a coisa pensada se transforma na coisa escrita. Que nem sempre representa muito bem a coisa pensada. E quando a coisa escrita se transforma na coisa lida… Lembra a brincadeirinha infantil de contar uma história ao ouvido de outra criança, que por sua vez conta para a criança seguinte…? Pois é.

À parte o fato de que cada leitor é uma pessoa diferente, ao escritor cabe a responsabilidade de garantir, ao máximo de sua capacidade, que a coisa pensada seja a coisa lida.

A primeira de muitas habilidades necessárias para conseguir esse objetivo é perceber com objetividade aquilo que o escritor realmente escreveu (e não o que pensou ter escrito). O caminho mente => texto => leitura só é válido na hora da produção. Na hora da revisar o texto, o conteúdo “mente” – a coisa pensada – deve desaparecer por completo (a redundância é válida, aqui). O texto precisa estar “limpo” de associações prévias, e a leitura deve representar apenas o que está nele. A coisa lida deve ser a coisa escrita.

Ao ler o próprio texto, o escritor precisa eliminar de sua consciência todo conhecimento prévio e qualquer intenção associados às palavras escritas. E deve monitorar a tendência natural de projetar no texto, no caso das histórias, o que sabe sobre o tema, a trama, os personagens, as cenas, etc.

Não é fácil. Cada escritor precisa encontrar o seu modo de criar um estado de vazio mental, de tábula rasa, de receptividade plena, ao ler o próprio texto: deixando passar o tempo necessário entre a escrita e a leitura, colocando-se em imaginação na pele de um leitor, imaginando que o livro será lido por um editor severo, fingindo que o texto é de autoria de outra pessoa e reagindo espontaneamente ao conteúdo…

Fácil não é, mas necessário, sim. Porque somente quando a coisa pensada, a coisa escrita e a coisa lida são uma coisa só, o escritor prova a si mesmo e ao mundo que ele sabe das coisas.

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Fonte da foto

http://bravonline.abril.com.br/

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